ARTIGO: O quebra-cabeças de 2014 *Por Marcelo Diniz

Desde muito cedo aprendi que em política nada é espontâneo. Revoluções nascem de conspirações.

Qual a ligação entre a AP 470, Eduardo Campos, os protestos de 2013 e contra a Copa, manipulação de informações econômicas pela grande mídia e a eleição de 2014?

Os protestos de 2013 começaram com a liderança de movimentos organizados e foram tomados por uma aliança entre setores da mídia, ativistas da Direita (organizados e não organizados, que se autodenominam “independentes”). De uma hora para outra, as manifestações trocaram bandeiras progressistas, como a Reforma Política e do Transporte Público de qualidade, por bandeiras fascistas, como Pelo fim dos Partidos Políticos (ou, nas entrelinhas, das instituições que em última instância, têm o papel de atuar como garantia ao debate democrático na sociedade), Contra a “Ditadura Gay” e “em defesa da família”.

Os grandes oligopólios midiáticos fizeram seu papel nessa encenação, com maestria! A inversão dos fatos, com o intuito de promover a hostilidade contra pessoas e instituições que fizeram História em defesa do povo ganhou espaço de destaque no horário nobre da Rede Globo, que achou ser o momento certo de arriscar a credibilidade do Jornal Nacional e sua bancada, em troca de alguns pontos de audiência e da possibilidade de incitar um clima de alta instabilidade (bem coerente, para uma organização que deu e recebeu apoio da Ditadura Militar que perseguiu pensadores, trabalhadores e militantes de direita moderada, centro e esquerda).

Com a proximidade da Copa do Mundo, a mídia e grupos da Direita tentam incitar novos protestos e propagam mentiras facilmente detectáveis, como a de que os investimentos seriam excessivamente altos e os benefícios, pequenos. Diversos dados são claramente manipulados e apresentados na TV, para fazer crer que nossa situação econômica é cada dia pior. Se reparar bem na foto que acompanha este texto, você verá somente uma amostra do baixo nível do jornalismo Global e da necessidade urgente de uma Reforma das Comunicações que responsabilize essas empresas pelas informações (e/ou deformações) que publicam.

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Eu poderia juntar à imagem o vídeo de Rachel Sheherazade defendendo a tortura no jornalismo do SBT, o que mostra que não só a Globo, mas outros grandes veículos estão dando suas contribuições para tentar criar o clima de instabilidade social, mas essa imagem mostra que as pontas soltas se encontram com razoável facilidade e estão prestes a se unir. O teatro dos dados serve para cumprir os compromissos dos veículos com outro segmento conservador ao qual sempre foram aliados: o dos banqueiros. Quando o risco de inflação se apresenta, o “remédio” é amargo para os trabalhadores e um manjar dos deuses para essas personagens que entram em cena: aumento dos juros. Com isso, os bancos lucram ainda mais (digo isso porque a cada ano o lucro do setor bate recordes e em recente levantamento da consultoria Brand Finance, quatro instituições financeiras brasileiras aparecem entre as marcas mais valiosas: Bradesco, em 20º, Itaú em 23º e Banco do Brasil, em 35º e a Caixa Econômica Federal em 49º) o nível de insatisfação popular aumenta dando mais propensão a sair às ruas, a imagem do governo fica desgastada e, consequentemente, temos a receita de bolo de que setores e “ilustres” membros da oposição precisam para ganhar as eleições de 2014. Mas ainda falta um ingrediente fundamental: o candidato.

Há mais de uma década a oposição tenta se recuperar da derrota para a Onda Vermelha que varreu do centro do poder o projeto neoliberal entreguista/lesa patria. E sob a liderança de uma figura política que figura entre as donas dos maiores carismas já vistos em toda a nossa História, que sintetiza em sí muitas características da identidade popular: Lula é nordestino, retirante, operário (maior liderança sindical já vista), vítima de acidente de trabalho etc. Primeiro, tentaram transpor Geraldo sobre Alckmin. Não colou. O picolé de chuchu não fez sucesso. Depois, quiseram esmagar sob o peso de uma bolinha de papel, a candidatura da primeira mulher com chances reais de chegar à presidência, a ex-guerrilheira, ex-presa política e vítima de torturas pelos milicos, Dilma Rousseff. Mais uma vez, não deu certo e olhe que contaram com o importante, mas não suficiente apoio da ex-Ministra do governo de Lula, Marina Silva, que resolveu mudar de lado e aliar-se aos banqueiros.

Seguiu-se uma disputa em ninho tucano que, se fosse no PT, logo seria utilizada para atacar o partido e provar a tese da “guerra interna” de que somos eternamente acusados por aqueles que não entendem a democracia petista. Até vazamento de informações por aliados de Aécio e Serra, houve, segundo o “Hoje em Dia” de Minas ( http://abcd-maior.jusbrasil.com.br/politica/6104082/jornal-mineiro-confirma-que-dossie-surgiu-na-disputa-serra-aecio ). Ganha a primeira batalha, Aécio Neves, agora presidente do PSDB, tenta manter longe as desconfianças existentes há anos sobre sua ligação com figuras um tanto suspeitas. Até helicóptero de pó entrou na trama (Confira: http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/12/aecio-neves-e-o-helicoptero-do-po.html ).

No meio dessa disputa para ocupar a vaga de candidato/a das oposições, surge uma figura bem contraditória: Eduardo Campos. Como Marina, ex-Ministro do governo de Lula. Cresceu em exposição graças à amizade e à confiança de Lula, tornou-se governador de Pernambuco numa disputa em que figurou como terceira via e surfou muito na popularidade e nos investimentos dos governos do PT. Depois, resolveu apostar no vôo solo ao Palácio do Planalto, tomando de assalto a Prefeitura de Recife, num momento de fragilidade interna do PT, envolto em um nível de disputa tão baixo quanto jamais visto pela militância e que extrapolou todos os limites.

O problema, segundo os analistas, é que Eduardo Campos “não dá liga”, pois, além de pouca projeção nacional, desfila com um sem-número de caveiras dentro do armário. Eduardo tem, digamos um “senso bastante elevado de oportunidade”, como diria um camarada com quem militei. Esmagou a oposição em Pernambuco até torná-la quase nula, resumida à resistência de movimentos sociais como as manifestações contra os aumentos absurdos de passagens, reprimidos com a conhecida brutalidade da Polícia Militar de Pernambuco (Confira aqui: http://ne10.uol.com.br/canal/cotidiano/grande-recife/noticia/2012/01/20/correria-bombas-de-efeito-moral-e-feridos-marcam-protesto-de-estudantes-no-recife-322343.php ). Resolveu bem a condição familiar, articulando a indicação da mãe ao Tribunal de Contas da União (Confira aqui: http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/camara-elege-ana-arraes-como-1-mulher-ministra-do-tcu,4fddcc00a90ea310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html ) e empregando um sem-número de parentes em cargos de chefia na estrutura estatal e encaminhando a carreira política de outros (Aqui está: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,campos-prepara-sua-sucessao-em-familia,1128320,0.htm )

Com a negativa da Justiça Eleitoral para a oficialização da Rede Sustentabilidade como partido político, Eduardo surpreendeu ao oferecer abrigo a Marina Silva e seus asseclas no PSB, utilizando o discurso da “tradição histórica das esquerdas” em abrigar companheiros de organizações irmãs entre seus quadros. Não colou. Eduardo forçou Marina a entrar num jogo perigoso: Disputar a indicação interna, pleitear a vice, numa chapa puro-sangue ou deixar-se recuar para um papel de menos destaque na disputa.
Ao mesmo tempo, Eduardo tenta se aproximar de setores que poderiam lhe proporcionar, além de capital financeiro para a disputa, capital eleitoral, como o agronegócio, dono de um dos mais poderosos lobbys do cenário político nacional e empreiteiros (Veja, em: http://www.em.com.br/app/noticia/politica/2013/10/29/interna_politica,464792/influenciado-por-marina-eduardo-campos-adota-discurso-da-sustentabilidade.shtml ).

Os resultados das pesquisas pré-eleitorais mostram que nem assim, o neto do saudoso Miguel Arraes decolou.
Aí que entra a última fagulha de esperança das viúvas da velha política! Ela atende pelo nome de Joaquim Barbosa. Ministro do STF, relator da AP 470, foi o responsável pela prisão de José Dirceu, José Genoíno e outros petistas acusados de corrupção. Para atingir seu intento, desvirtuou a doutrina ao utilizar de modo incorreto a Teoria do Domínio dos Fatos sem antes comprovar a autoria do crime de que eram acusados os dirigentes do PT (e quem diz não sou eu, mas o criador da mesma: http://www.viomundo.com.br/denuncias/jurista-alemao-repreende-o-stf-pelo-mau-uso-de-sua-teoria-do-dominio-do-fato.html e http://jornalggn.com.br/noticia/alunos-de-roxin-denunciam-embustes-utilizando-a-teoria-do-dominio-do-fato ).

O badalado arauto da moral e dos bons costumes políticos também peca por sua própria conduta. Abriu empresa para comprar apartamento nos EUA, driblando limitações legais ( Veja a matéria, em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/07/1314299-barbosa-cria-empresa-para-comprar-imovel-em-miami.shtml ), manteve relações (não sei se negociais ou pessoais) com Antonio Mahfuz, foragido da Justiça e alvo de diversos processos (http://noticias.terra.com.br/brasil/politica/julgamento-do-mensalao/petistas-compartilham-foto-de-joaquim-barbosa-com-foragido,b3ed29ff2b7f3410VgnVCM10000098cceb0aRCRD.html ) e teve sua “pré-candidatura” à Presidência da República “lançada” pelo Ministro Marco Aurélio Mello, recentemente (http://www.paraiba.com.br/2014/02/08/24997-bomba-ministro-do-supremo-dia-que-joaquim-barbosa-e-candidato-a-presidente ).

De fato, a postura de Joaquim Barbosa já foi alvo da estranheza do meio judiciário, pois a função de juiz guarda consigo uma certa reserva (segundo defende a grande maioria dos magistrados e juristas), segundo a qual, o papel do mesmo seria falar apenas nos autos dos processos.

Se fosse “só” isso, já seria estranho, mas durante a abertura da Copa das Confederações, Joaquim Barbosa chegou ao limite do desrespeito à posição que ocupa como presidente de um dos três Poderes Constituídos. Eu explico: Ensina-nos a Ciência Política que, para o bem do Estado e portanto, da sociedade, é preciso evitar a concentração de poder nas mãos de um governante ou instituição única. Desde o Século XVII chegou-se à conclusão de que o melhor seria a existência de três poderes separados, porém, funcionando em regime de extremo respeito e cooperação. Muitos opositores do PT e crentes da causa de Barbosa reagiram eufóricos à atitude do mesmo, quando, frente às câmeras de TV do mundo inteiro, deixou de cumprimentar a Presidenta Dilma. Fiquei surpreso de ver, mesmo em minha sala de aula (onde curso Direito), colegas comemorando o feito, que atenta contra um princípio básico do Estado Brasileiro.

Na semana passada, a resposta à tática de Joaquim (que na minha humilde opinião só seria candidato a presidente em 2018, a não ser que o plano de implosão da Copa do Mundo dê certo, vide: http://www.tribunahoje.com/noticia/90494/politica/2014/01/13/joaquim-barbosa-senador-ou-governador-do-rio-de-janeiro.html ) veio exatamente de onde a militância mais esperava: O Presidente Lula bateu forte e disse que Se [Joaquim Barbosa] quiser fazer política, entre num partido político e seja candidato, porque senão não tem lógica”. E completou: “Quando você indica alguém, você está dando um emprego vitalício e o cidadão, se quiser fazer política, que diga: ‘Não aceito ser ministro, vou ser deputado, vou entrar num partido político e mostrar a cara. Mostre a cara'”

Como vai terminar a disputa de 2014? Ninguém pode afirmar. Mas o fato é que com o cenário atual que caminha para uma confirmação da opção feita pelo povo brasileiro em 2002, o nível da disputa tende a baixar muito! É de praxe: Sempre que a coisa fica difícil no voto, as forças reacionárias apelam para “dossiês”, manipulação de informações e sabemos que os limites são bem subjetivos.

2014, PT, PSDB, PSB, Eduardo Campos, Marina Silva, Joaquim Barbosa, Globo, Copa 2014, AP 470

* Marcelo Diniz é militante da JPT – Caruaru, Coordenador de Relações com os Conselhos da Prefeitura Municipal de Caruaru e 1º Secretário do Diretório Acadêmico Gilberto Freitas de Araújo (Direito, ASCES)

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