ARTIGO: Sobre Rolezinhos e Racismo no Brasil

*Por Anderson Santos
Diante de qualquer fenômeno novo é muito fácil e comum se cometer dois tipos de erro: superestimar ou subestimar. Isso aplicado ao fenômeno como um todo ou a características ou aspectos dele. O que escrevo daqui por diante não foge a essa regra e assumo estes riscos.

Os rolezinhos se tornaram um dos principais assuntos deste início de ano na imprensa, em rodas de conversa ou em redes sociais. Muito se falou e se escreveu sobre suas características e sua origem. No entanto, uma coisa me causa estranhamento, quase nada do que li ou ouvi relaciona os rolezinhos ao que aconteceu no Shopping Vitória(1), no dia 30 de novembro de 2013, na cidade de Vitória, Espírito Santo. Talvez não exista mesmo nenhuma relação entre as duas coisas.

De qualquer forma considero muita coincidência que após jovens de periferia, em sua maioria negros, que fugiam da repressão policial a um baile funk terem procurado refúgio em tal shopping terem causado com sua simples presença pânico nos lojistas e frequentadores habituais do centro comercial, outros jovens de periferia, também negros em sua maioria, tenham iniciado os rolezinhos. É verdade, que encontros daquele tipo já aconteciam muito antes, mas foi justamente após o ocorrido no Shopping Vitória que esses encontros tornaram-se gigantescos e passaram também a ser conhecidos, condenados e reprimidos.

O rolezinho que ocorreu no Shopping Metrô Itaquera(2), na cidade de São Paulo, no dia 7 de dezembro de 2013, foi um marco nesse sentido. Uma semana após a repressão no Shopping Vitória, este é considerado o primeiro rolezinho, tendo atraído cerca de 6 mil jovens e muita repressão policial.

É estranho que quase ninguém busque a relação entre os dois acontecimentos, mas não me parece absurda a ideia de que a identificação com os jovens reprimidos em Vitória tenha estimulado os jovens da periferia paulistana a comparecer ao rolezinho. Jovens, iguais a eles, haviam sido violentamente reprimidos apenas por ousar buscar proteção no templo de consumo da elite branca. A mim não parece também nenhum pouco absurda a hipótese de que o rolezinho de Itaquera tenha sido uma reação, ainda que não muito “consciente” ao “rolezinho” de Vitória.

Deixando a busca pela origem de lado, é fato que a repressão no Shopping Metrô Itaquera desencadeou uma reação que motivou e motiva os rolezinhos até hoje. E aí é que está, para mim, um ponto chave para compreensão desse fenômeno.

Este tipo de reação não é habitual. O “normal” diante de qualquer situação de repressão é que as pessoas se desestimulem a participar de novas manifestações do tipo que gerou aquela repressão. Afinal, é esta a função que cumpre repressões violentas como aquelas, em nossa sociedade. Era certamente este um dos objetivos da repressão no dia 7 de dezembro e de qualquer outro ato de repressão: “dar o exemplo” e deixar um recado claro de aquele tipo de coisa não seria admitido.

No entanto, o efeito foi contrário, e é nesse ponto que aqueles que tentam negar o caráter político dos rolezinhos começam a se perder. Como explicar que a repressão tenha gerado mais rolezinhos, iguais ou maiores, senão por uma reação política, ainda que não bem definida ou “consciente”? As explicações de que aqueles jovens só querem namorar ou se divertir ficam capengas. Afinal fica difícil paquerar ou se divertir num ambiente onde já se sabe antecipadamente que a polícia atuará com total truculência.

Há ainda as análises que tentam, à direita e à esquerda, menosprezar o caráter político dos rolezinhos classificando-os como tendo o único objetivo de busca de visibilidade(como se isso fosse pouca coisa e não tivesse uma conotação política) ou a busca pela integração ao consumismo, simbolicamente representado nos shoppings.

Ora, mas o que é a busca por visibilidade senão uma confrontação política explícita e direta com os ditames de uma sociedade que fez e faz todos os esforços para destruir ou sufocar a identidade desses jovens? Que os relega ao papel de cidadãos de segunda classe. Que estabelece padrões de beleza e comportamento que os excluem daquilo que é “bonito” ou que merece ser visto pela sociedade.

O que seria a tal busca por se integrar ao consumismo, senão a busca por se integrar plenamente a uma sociedade que determina que é justamente o consumo a forma de integração plena à ela?

Quando estes jovens ousam se integrar a estes espaços de consumo, que não foi feito para eles e onde não são bem-vindos, não estão confrontando abertamente o lugar que lhes foi reservado na sociedade? Isto não tem um caráter político?

Quando Franklin McCain(3) ousou, em 1960, nos Estados Unidos a tomar um café no balcão reservado para brancos, talvez muitos de seus contemporâneos tenham visto aquilo como apenas uma tentativa de integração ao consumismo. Mais de cinquenta anos depois, seu ato é incontestavelmente visto como uma das maiores afrontas à segregação racial norte-americana, um ato político que desencadeou acontecimentos que por uma década abalaram os Estados Unidos e geraram incontáveis conquistas de direitos civis para os negros de lá.

Trabalhadores que fazem greve por melhores salários ou condições de trabalho não estão lutando por nada além do que sua integração melhor ou mais digna dentro do sistema capitalista. No entanto, este nada além quando visto na superficialidade, pode ir muito além em determinados momentos históricos.

Esta é uma lição que a classe dominante compreende muito bem, por isso que os rolezinhos são inaceitáveis e precisam ser violentamente reprimidos. Eles escancaram o abismo que separa negros e brancos, pobres e ricos, no Brasil.

Para além de qualquer explicação que se possa encontrar na superficialidade desse fenômeno, os rolezinhos são a confrontação explícita atual às segregações racial e social brasileiras. São a grande novidade política (ao menos) dos últimos meses. Em que jovens de periferia, em sua maioria negros, ousam enfrentar não apenas à polícia, não apenas a um sistema judiciário racista e elitista que ratifica e autoriza a repressão contra eles ou aos olhares de reprovação da “massa cheirosa” frequentadora dos shoppings, mas à própria estrutura segregacionista da sociedade brasileira. Eles mostram para uma sociedade hipócrita, que insiste em negar e disfarçar seus preconceitos que ela é profundamente racista!

Estes jovens estão aprendendo, da pior maneira, que a sociedade de consumo não é para todos, não é para eles. Mas esta é a pedagogia dos oprimidos, que aprendem na luta que a solução de seus problemas não virá das mãos de seus opressores. E este é um processo inigualável de elevação da consciência.

Coincidentemente, o ato de Franklin McCain não foi o primeiro ato de contestação à segregação racial norte-americana, da mesma forma que os rolezinhos estão muito longe de serem os primeiros atos de contestação à segregação racial brasileira. Mas assim como o ato “simples” de McCain iniciou uma nova fase na luta pelos direitos civis dos negros dos Estados Unidos, espero que os rolezinhos consigam fazer o mesmo no Brasil. Este potencial eles já tem, só espero que não demore cinquenta anos para percebermos isto!

*Anderson Santos é Militante do Movimento Negro Unificado, do Forum de Juventude Negra de Pernambuco e do Partido dos Trabalhadores
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