CUT: Da casinha emprestada à maior central sindical da América Latina – Por Jair Meneguelli

Trinta anos atrás, numa época sem internet ou telefone celular, um congresso de trabalhadores realizado em São Bernardo do Campo (SP) reuniu mais de cinco mil delegados, vindos de todas as partes do país – apesar de toda a dificuldade de comunicação. Para nós, fazia todo o sentido propor a formação de uma central sindical única. Naquele período, se você olhasse as pautas de reivindicações de todos os sindicatos, veria que elas eram praticamente iguais. Eram as mesmas lutas: uma inflação terrível, péssimas condições de trabalho, falta de diálogo entre trabalhadores e empresários, entre outras.

E nós, em cada estado ou município, não discutíamos isso, embora houvesse convergência de pautas. Era importante juntarmos essas necessidades porque, independentemente da categoria, todos nós éramos trabalhadores. Nós não lutávamos apenas por melhores salários. Nós queríamos democracia, queríamos o direito de ser ouvidos, de apresentar nossas reivindicações para as empresas, para os governadores, para o presidente da República.

Quando iniciamos a preparação do 1º Congresso Nacional da Classe Trabalhadora, o CONCUT, nós não tínhamos nenhuma ideia da quantidade de quantas pessoas participariam. O objetivo era um só: discutir a criação de uma central que lutasse pelos direitos dos trabalhadores do Brasil. Ficamos temerosos, pois, poderia não aparecer ninguém. Era uma possibilidade.

No dia marcado, os ônibus começaram a chegar. Eram tantos que não podíamos contar. Mas as condições para receber os delegados eram precárias. O pavilhão do congresso também era o hotel. Compramos colchões que não tinham mais do que cinco centímetros de espessura. Não havia cobertores. E a temperatura em São Bernardo naquela época era de 3°C durante a noite. Muita gente não tinha ideia das condições climáticas e vinha despreparada. Nós fomos obrigados a ir às casas vizinhas pedir roupas e cobertores. Apesar de todas as adversidades, o CONCUT foi realizado e a criação da Central Única dos Trabalhadores foi aprovada.

A CUT começou em uma casinha antiga, que estava apenas no reboco, e pertencia ao Sindicato dos Químicos, em Santo André. Éramos apenas eu, um assessor e uma secretária. Os dirigentes eram de vários estados e vinham apenas nas reuniões. Nós passamos a viajar e a discutir com diversos sindicatos a filiação à CUT, mostrando a importância de estarmos juntos. Acreditávamos que teríamos mais força assim do que se estivéssemos divididos. Foi uma verdadeira peregrinação. Foi muito difícil, mas, até hoje, a CUT é a maior central sindical do país e da América Latina.

Nos primeiros anos, travamos grandes batalhas, principalmente porque estávamos sob a égide da ditadura militar. Uma das nossas principais inimigas era a inflação. Havia um grande endividamento externo e o crescimento do país desacelerava a cada ano. Chegamos a um ponto em que o país estagnou economicamente e isso se refletia em nosso dia a dia. Os aumentos salariais que conquistávamos eram diluídos pela inflação. Era uma luta quase perdida.

Nossa maior vitória naquela ocasião foi a redução da jornada de trabalho para 40 horas. Explico: o aumento de salário era consumido pela inflação, mas a conquista da redução da jornada de trabalho era permanente, ninguém podia tirar de nós. Outra grande vitória foi sermos ouvidos pelos presidentes Sarney e Collor. Fomos pra cima, fizemos barulho, nos fizemos ser recebidos. Éramos entes políticos e queríamos existir.

Fizemos grandes manifestações pelo Brasil, e todas foram muito importantes, porque houve um fortalecimento da classe trabalhadora. E, embora se fale muito na participação dos estudantes no Impeachment do Collor, nós – os trabalhadores – montávamos os palanques e mobilizamos manifestações nos quatro cantos do país. Discursávamos ali, junto com os estudantes. Foi um momento importante, onde a classe trabalhadora respondeu ao chamado dos dirigentes. Fomos às ruas e, junto com a sociedade, conseguimos tirar o presidente Collor do poder.

Hoje, o momento econômico, político e social é diferente. Muita coisa melhorou. Mas ainda não está perfeito. A luta precisa ser contínua para que a mudança seja plena. Lá no começo, o nosso sonho era juntar os sindicatos, era unificar o movimento com a Central Única dos Trabalhadores. E isso não aconteceu ainda. Enquanto o movimento sindical estiver dividido, as conquistas vão se tornar cada vez mais difíceis. E, em minha opinião, é o imposto sindical que está favorecendo a divisão. Essa é uma pauta do passado que tem que continuar como uma reivindicação do presente.

Se você for ao Hospital das Clínicas, por exemplo, verá o sindicato das enfermeiras, sindicato dos radiologistas, sindicato dos anestesistas e por aí vai. Quer dizer, você subdivide várias vezes a mesma categoria, que teria muito mais força se unida estivesse. Precisamos nos reunir para aumentarmos a nossa voz. O movimento também precisa conversar mais com os trabalhadores, eles têm muitas ideias, propostas e reivindicações. Os tempos são outros, e a tecnologia é um grande trunfo que temos que usar a nosso favor.

Hoje, os trabalhadores têm um poder aquisitivo maior do que nós tínhamos no passado. Foi para isso que nós lutamos. Mas ainda falta muito, sempre vai faltar. O cidadão tem o direito de querer mais, ninguém deve querer menos. Querer um emprego melhor, ter uma condição de vida melhor. Uma vez me perguntaram: se tivermos uma situação de pleno emprego, haveria necessidade de os sindicatos existirem? Eu respondi: sim. Os sindicatos deveriam existir para manter essas conquistas, pois não há democracia sem direitos plenos. Os sindicatos foram fundamentais para a sua construção e permanência não só aqui, mas em todo o mundo. O Brasil está nas ruas e os trabalhadores não podem ficar calados. A hora de gritar é agora.

E eu não poderia deixar de falar sobre a entrevista veiculada no dia 19.08.2013 pelo jornal O Estado de S. Paulo. Repito aqui um trecho da carta que enviei à direção da CUT: “Gostaria de externar meu total descontentamento com a forma, conteúdo e postura do jornalista e do veículo quanto à distorção do que foi dito com o que foi publicado. Em hipótese alguma, me referiria de forma desrespeitosa, como foi colocada pelo referido jornalista, a qualquer organização representativa da classe trabalhadora e, principalmente, à Central Única dos Trabalhadores, a qual tive a honra de participar da fundação e presidir por mais de 10 anos. Não faria isso. Pois, se o fizesse, estaria desconstruindo minha própria história de luta e defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores, adquiridos com muito suor e sacrifício. Reafirmo meu respeito e companheirismo à CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES e às demais Centrais Sindicais do Brasil”.

Jair Meneguelli foi o primeiro presidente da CUT. Atualmente, preside o Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (SESI)

Texto publicado originalmente no site da CUT Nacional  www.cut.org.br 

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