O que a Bienal da UNE tem? A diretora de cultura da entidade explica

Para levantar os ânimos da estudantada de todo país, chega em 2013 mais uma edição do tradicional festival de cultura da UNE. A BIENAL se firma hoje como o maior evento estudantil da América Latina e completa a sua oitava edição muito mais madura em relação aos desafios do Brasil. O evento acontecerá em Recife e Olinda, entre os dias 22 e 26 de janeiro, e traz para o centro das comemorações o centenário de Luiz Gonzaga.

Para falar sobre o assunto, o site da UNE preparou uma entrevista exclusiva com a diretora de Cultura da entidade, Maria das Neves. Na estrada desde outubro, Maria já percorreu mais de 20 universidades para divulgar a Bienal. Amazonense, deixou o namorado, o tucupi e o tacacá para levar aos estudantes do Brasil um pouquinho do que vai acontecer nesse próximo janeiro.

Durante a entrevista, Maria explica a relação do movimento estudantil com a produção cultural no país, discorre sobre o tema da 8ª BIENAL e cita até o movimento emblemático na cultura brasileira, o Centro Popular de Cultura, CPC da UNE. Confira:

A Bienal da UNE é o maior festival estudantil da América Latina. É momento em que a UNE propicia um encontro entre os estudantes e a cultura popular brasileira. Momento para muitos de descobertas e aprendizado. A grande diferença é que a Bienal que fazemos é carregada de brasilidade, de patriotismo e diversidade. É onde a UNE acentua os elementos que constroem nossa identidade nacional. É feita por e para estudantes brasileiros. Estudantes de norte a sul do país de todas as cores, todos os credos, que se unem para celebrar o Brasil, nossa cultura e a história do nosso povo. Cada um traz a bandeira do seu Estado, sua música, seu gingado. E fazem da Bienal da UNE o festival mais plural e, portanto, mais brasileiro que existe. A Bienal também não é um evento estático. Ela já passou por 4 estados: Bahia (1° e 6°), RJ (2°,5°,7°), SP (4°) e Pernambuco, que recebeu a 3° Bienal e agora receberá a 8° edição do evento. Isso permite, de fato, que o estudante conheça o Brasil. Um dia chagaremos no Norte!

 Certamente. Desde o CPC da UNE, a cultura sempre foi um instrumento de luta para expressarmos nossas opiniões políticas através de uma linguagem que comovesse, politizasse e conquistasse não só os estudantes, mas a sociedade como um todo. A Bienal é o momento em que debatemos, formulamos e avaliamos a política cultural brasileira. Em 2003, a 3° Bienal da UNE, também em Pernambuco, debateu as políticas públicas para cultura no Brasil nos marcos do governo Lula. Retornando a Recife e Olinda, é hora de avaliar o que avançamos e os novos desafios passados 10 anos de governos progressistas. Tivemos importantes vitórias recentemente para a cultura brasileira no Congresso Nacional, como a aprovação do Sistema Nacional de Cultura e o Vale Cultura (a ser sancionada pela Presidenta Dilma). No entanto, a batalha continua para aprovarmos a Lei Cultura Viva, que acaba de ser aprovado na comissão de finanças e tributação da Câmara dos Deputados. O projeto visa consolidar os pontos de cultura e o programa Cultura Viva como política de estado. A UNE defende a cultura como parte indispensável para a plena formação do estudante e do cidadão brasileiro, um direito básico. Portanto, essa luta é de todos nós!

 A Bienal é outra forma da UNE dialogar com os estudantes que não se sentem atraídos em militar no DCE ou no Centro Acadêmico. A universidade é um espaço heterogêneo e precisamos que todas as tribos dentro dela participem da luta política de alguma forma. E cada vez mais fortaleça a UNE e a rede do movimento estudantil. Da necessidade de dialogar mais com o conjunto dos estudantes, a UNE lançou na 2° Bienal, o Circuito de Cultura e Arte da UNE (CUCA da UNE). A juventude é força motriz das transformações sociais e uma parcela concentra-se nas escolas e universidades. A UNE precisa de todos (as) estudantes mobilizados, tencionados para ajudar a pressionar pela Reforma Universitária e para continuar mudando o Brasil. Então é isso, a Bienal faz a UNE e o CUCA falar para mais gente, trazer mais gente para luta!

 Sem dúvida. Não se pode conceber uma educação sem cultura. A Bienal é a síntese desse debate. É o espaço mais democrático e interativo construído pelo movimento social. Sem discriminação e preconceitos, todo e qualquer estudante pode inscrever-se e subir aos palcos da Bienal. Afinal, a Bienal é isso, o momento em que os estudantes deixam de ser apenas plateia e tornam-se protagonistas!

Há muita coisa sendo produzida pelos estudantes dentro e fora das universidades. É preciso mais incentivo, é preciso dar oportunidade. O CUCA da UNE é quem faz esse diálogo entre o que esta fora e dentro da Universidade. É necessário, na verdade, romper com os muros da universidade e quebrar essa dicotomia. A cultura popular, por exemplo, tem que estar dentro da universidade. E a universidade precisa contribuir para a sua difusão e seu resgate.

A 8 ª Bienal da UNE com o tema “ A volta da Asa Branca”, além de fazer uma justa homenagem a Luiz Gonzaga, falará de um povo que ajudou a construir o Brasil. São milhares de migrantes nordestinos que saíram da sua terra em busca de prosperidade e levaram consigo seus sonhos, sua alegria, sua cultura. Cultura essa cantada Brasil a fora por “Lua” através do forró. Todo bom brasileiro tem sangue nordestino nas veias. Minha mãe-vó, por exemplo, filha de um paraibano com uma potiguar foi para o Amazonas com a família quando era ainda uma criança atrás de uma vida melhor, fugindo da seca e da miséria. Teve 13 filhos. Professoras, operários, empresários, tem de tudo.  Hoje, no entanto, o nordestino esta voltando para casa, segundo dados apresentados pelo IBGE. E Pernambuco é o destino mais procurado pelos nordestinos. A UNE volta ao fole do “Rei do Sertão”, a esse novo nordeste, com mais expectativa de vida, apesar dos desafios ainda impostos pela seca. Será uma celebração emocionante!

Luiz Gonzaga, além de um grande brasileiro, artista excepcional, também foi porta voz de um povo sofrido, castigado pela seca, pela miséria. Esse povo, no entanto, é bravo, destemido e trabalhado, que em meio a dor e alegria festejava em homenagem a “ Padim Ciço”, a Lampião e Maria Bonita (o sagrado e o profano sempre juntos). Seu legado cultural é extraordinário. Sua música devolveu a auto-estima dos nordestinos espalhados pelo Brasil. Então, tivemos a grata felicidade de coincidir a construção da Bienal com o centenário de Luiz. Fomos bem recebidos pela UEP e o movimento estudantil local, além de contarmos com o importante apoio do Governo do Estado de Pernambuco. Portanto, a UNE, patriota que é, não poderia deixar de homenagear um dos brasileiros mais ilustres, que fez o mundo inteiro cantar “asa branca”, dançar e se emocionar com a história da nossa gente.

“ A volta da asa branca”, de autoria do próprio Luiz Gonzaga, tema da Bienal, além de ser linda tem tudo a ver com o contexto que vive Pernambuco e todo o Nordeste. O povo esta voltando para casa!

“A asa branca
Ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas
E voltou pro meu sertão”

Estudantes de todo Brasil inscrevem seus trabalhos que serão selecionados nas áreas de música, artes cênicas, audiovisual, artes visuais, literatura, projetos de extensão, mostra de ciência e tecnologia. Tem mostras convidadas de todas essas áreas e ainda oficinas, mini-cursos, lado C (integração com a cultura local), debates, conferências, shows abertos (artistas nacionais e locais) e por fim a culturata. Ufa! É uma agenda intensa, durante cinco dias, totalmente aberta ao público.  Durante o dia, os espaços da Bienal estão abertos para as mostras selecionadas de estudantes de todo Brasil e, a noite, é marcada por shows inesquecíveis!  A programação e os espaços onde ocorrem as atividades servem para desenvolver o tema proposto e propiciar que o estudante que vem de outro estado possa conhecer também a cultura local.

A meta é sempre dobrar o número de trabalhos inscritos. Contamos para isso com a rede organizada do Movimento Estudantil (CA´s), DCE´s, UEE´s e a rede do CUCA para potencializar a mobilização e inscrição de trabalhos.  É dever de todo diretor da UNE, cuqueiros e lideranças estudantis mobilizar e motivar a inscrição de trabalhos. Por todo Brasil, pipocam lançamentos da 8° Bienal da UNE. Aqui mesmo na Paraíba, onde também estou mobilizando para o CONEB, fizemos um grande lançamento na Virada Cultural do DCE da UEPB e por aí vai. Nessa reta final é preciso “Gonzaguiar” mais a universidade, contagiar os estudantes. Organizar as caravanas, fazer o credenciamento, arrumar a mochila, não esquecer a barraca e o colchonete e preparar-se para uma grande aula-espetáculo de Brasil!

Começarei pelo fim. A novidade é a maior interação com os principais pontos turísticos de Pernambuco. Durante o dia ocuparemos Olinda com uma superestrutura montada na Praça do Carmo e ao redor. Ao anoitecer, levaremos os estudantes ao Marco-Zero onde acontecerão os shows principais. Esse é meio que o roteiro feito durante o carnaval. E nas prévias da maior festa  popular do Brasil, o carnaval, os estudantes entrarão no pique na folia.

Legado: Queremos deixar um legado desta Bienal para a cultura popular brasileira. Recentemente, o frevo foi considerado patrimônio imaterial da humanidade. Agora é vez do forró de Luiz Gonzaga e suas matrizes, profunda expressão do povo nordestino e brasileiro, existente em cada canto desse país. Fortaleceremos portanto, essa que é uma luta de cada sanfoneiro, zabumbeiro, trianguleiros e forrozeiros herdeiros de Gonzagão.  O reconhecimento deste bem como Patrimônio Cultural brasileiro poderá reforçar o apoio à dinâmica dessas tradições tão importantes para o nosso país. Quem nunca foi ficará apaixonado! O coração vai bater mais forte, ficará ansioso por cada novo encontro, suará frio só de pensar nas expectativas que a programação lhe proporcionará.  E vai se entregar a um profundo sentimento de brasilidade que contagiara sua vida. Se cada estudante sair da 8° Bienal , comprar um CD de Luiz Gonzaga e aprender a apreciar sua música, a UNE  terá cumprido sua missão: fazer o estudante ser mais brasileiro! E ter muito orgulho disso. Por cada elemento que constitui nossa cultura, por cada jeito de falar e se expressar que fazem do Brasil uma nação tão plural, mas unida e soberana sobre seu patrimônio e a sua liberdade.

Patricia Blumberg

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